As mulheres no agro já são uma realidade.

Mais de 1.500 pessoas reunidas para apresentar novas tecnologias, aprimorar técnicas de manejo e discutir o futuro do agronegócio.

Este seria mais um dos tantos eventos que acontecem Brasil afora, se não fosse um detalhe: neste, quem fez a diferença é a mulher.

Promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), o 3º Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio (CNMA) reuniu as mulheres no agro que fazem a diferença.

E as mulheres no agro vieram de quase todos os estados: Pará, Maranhão, Tocantins, Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, entre outros.

“Este evento veio para trazer a mulher mais a frente, porque a mulher sempre esteve dentro do agronegócio, quer seja ajudando o marido no trabalho ou ajudando o marido a decidir”, lembra Francisco Maturro, vice-presidente da ABAG e um dos organizadores do evento.

Com o tema “2030: o futuro agora na prática”, o Congresso trouxe especialistas dos quatro cantos do país, abordando práticas importantes para o crescimento do setor.

Entre os destaques, a profissionalização: é o exemplo da Fundação Roge, que promove ensino médio e técnico gratuito voltado à pecuária leiteira.

“Dentro da bovinocultura leiteira, nós sentimos que as vezes ainda acontece uma certa resistência das pessoas um pouco mais velhas, em uma administração um pouco mais familiar, em receber as inovações, as novas tecnologias. Então o nosso desafio hoje, é esse. Nós atendemos um público-alvo com uma idade de 14 a 18 anos, que são a geração conectada à tecnologia. A eles cabem o desafio de absorver todo conhecimento técnico, de gestão e humano que passamos para eles, fazer essa transformação, e fazer a sucessão familiar no campo”, explica Carmem Alves, diretora da Fundação.

Para o sociólogo e um dos idealizadores do evento, professor José Luiz Tejon, a ascensão das mulheres no campo é um fenômeno espontâneo mundial.

“As mulheres sempre foram fundamentais, porque a deusa de agricultura é Ceres, uma mulher. A presença da mulher sempre fundamental. Agora, o que acontece, é que no últimos 50 anos, as portas se abriram, porque até pouco tempo atrás era proibido votar, não havia voto feminino. As mulheres não tinham o mesmo direito dos homens, então isso mudou, as mulheres ascenderam não só na realidade em que elas sempre atuaram, mas passaram a ascender no comando, na gestão, na diretoria de companhias”, afirma.

“Se você olha pelo retrovisor, ainda é pouco, mas se você colocar nos próximos, 15 anos, nós vamos ver muito mais mulheres no agro, participando da direção de todas as companhias do mundo, de entidades e cooperativas”.

Prevendo este aumento da participação feminina, uma iniciativa vai prepará-las para assumirem a liderança no campo: é a Academia de Mulheres Líderes do Agronegócio.

“Este é um programa piloto, porque começa com 20 mulheres em 2019 e já temos planos de chegar a 300 mulheres em 2020”, destaca Ana Cerasoli, diretora de Marketing da Corteva Agriscience, uma das idealizadoras do projeto.

De acordo com ela, o programa é composto por três módulos, começando em São Paulo, com foco em liderança, boas práticas, e o tema de gestão.

Já o segundo módulo acontecerá em Brasília, e vai focar em temas regulatórios do agro e em ciências políticas.

Por fim, o último módulo é em Nova Lima, Minas Gerais, focando em sustentabilidade e novas formas de governança.

Com tantos avanços e planejamentos, não se pode negar: as mulheres no agro já são uma realidade.

“Eventos como esse tem que se multiplicar pelo Brasil. A coisa mais importante que nós temos que fazer, é dar valor a quem tem, e a mulher, nesse caso, à frente do agronegócio, tem nos ajudado muito”, ressalta Francisco Maturro.

“A gente fala muito na nossa escola que a mulher tem ganho espaço. Nós temos o costume de sair bastante para fazermos visitas, seminários, congressos e eventos técnicos, e é muito interessante que as nossas alunas de 16, 17 anos, saem para os eventos e quando elas voltam, elas voltam com a confirmação daquilo que falamos”, lembra Carmem Alves.

“[A mulher] pode fazer melhor sim, mas principalmente de um outro jeito, que pode agregar muito. No meu sitio eu já tenho duas sucessoras, que são minhas filhas, que tocam o negócio de um jeito diferente que eu e meu marido, mas dou nota dez pra elas. E já que elas entraram, eu entrei no conselho de administração da Cooperativa Veiling Holambra, sou a primeira e única mulher nessa administração”, destaca Elisabeth Breg Gruisen, produtora de flores no município de Holambra (SP).

“Eu represento também o IBDEAgo, que é Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio, também presidido por uma mulher, e a gente vem notando um crescimento, sim. Esperamos que isso se estenda por muitos e muitos anos”, afirma Daiane Monteiro, advogada e produtora rural.

Já Ana Cerasoli faz um alerta. “Há um avanço enorme que vem acontecendo na última década, a gente que vem acompanhando, vê a diferença e a participação das mulheres no negócio. Mas infelizmente, hoje, ainda, a mulher é vista como uma ajuda no campo. Existem mulheres e casos de sucesso excelentes, de mulheres que já participam da gestão, são pesquisadoras, que estão realmente na liderança e muitas vezes na comercialização do negócio, mas a gente vê que ainda existe um preconceito e tem um caminho muito grande a percorrer”.

O vice-presidente da ABAG, ainda, finaliza. “É muito importante que se dê essa visibilidade a quem sempre decidiu. Em última análise, a mulher sempre decidiu”.